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Ao atravessar Maranguape, Maracanaú, Caucaia e Fortaleza, o rio Maranguapinho acompanhou o surgimento do Genibaú e acumulou as marcas da urbanização e da degradação ambiental
 
Por Isabella Pascoal

Quatro decadas aàbeira do rio

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O rio Maranguapinho na Rua das Pedrinhas.

Foto: Grasieler Martins.

O rio Maranguapinho atravessa o Genibaú, em Fortaleza, desde antes de o bairro existir. Quando as primeiras famílias começaram a ocupar suas margens, no início da década de 1980, o curso d'água era referência de caminho e de sustento. A história do bairro e a história do rio cresceram juntas.

 

Quarenta e poucos anos depois, reconstruir esse começo não é uma tarefa simples.

 

Na rua do Moçambique, próxima ao Maranguapinho, ainda é possível encontrar moradores que chegaram quando o bairro era feito de mato e poucas casas. Eles permanecem sentados em cadeiras de plástico nas calçadas, observando o movimento lento da tarde ou acompanhando o rio pelas frestas entre as construções. Mas o tempo, que ergueu ruas, multiplicou moradias e transformou o entorno, também desgastou as lembranças.

 

As datas se embaralham. Os nomes mudam de lugar. Um acontecimento puxa outro e, às vezes, décadas inteiras parecem comprimidas em uma única recordação. A memória da fundação do Genibaú chega ao presente como chegam as águas do Maranguapinho: carregando sedimentos, perdas e vestígios.

 

Para Francisca Ferreira, 65 anos, o Maranguapinho já foi mais seco. A lembrança surge com segurança por já ter observado o mesmo rio há décadas. Alguns metros adiante, Maria Lima Messias, 72 anos, guarda outra versão: para ela, o curso d'água sempre foi cheio e continua transbordando ainda mais nos períodos de chuva.

 

As duas vivem há cerca de vinte anos na mesma região. Dividem a mesma rua e a proximidade com o rio. Ainda assim, não compartilham exatamente as mesmas recordações.

 

Há quem alcance um pouco mais longe. Luís Leão da Silva, 78 anos, morador e articulador popular do Genibaú, chegou ao bairro em 1977, quando o território ainda dava seus primeiros passos e lutava para ser oficialmente reconhecido. Dono de uma memória afiada, ele recorda com precisão o cenário intocado que encontrou na segunda metade da década de 1970. "Quando eu comprei o terreno aqui, era a mata geral. Tanto que aqui não tinha rua, não tinha nem... era uma vereda", rememora.

Seu Leão mora a 40 anos perto do rio e costumava usa-lo para alimentar a família e conseguir renda.

Foto: Clara Klink.

Diz que seu terreno foi comprado naquele período e um dos primeiros a serem ocupados na área. “Em 77 não tinha ninguém. Eu comprei o terreno para morar, só que eu tive que olhar onde tinha água ", relembra.

 

Na época, as primeiras pessoas com quem teve contato na área foram indígenas, os quais ele recorda ter sido recebido com muita amabilidade por eles.

 

​Antes de deixar Fortaleza por alguns anos, ouviu deles preocupações sobre as mudanças que começavam a surgir, já que a imobiliária responsável pelo loteamento estava expulsando os habitantes tradicionais e destruindo suas casas.

 

"Eu vi outras casas destruídas e eram deles", lamenta.

 

Logo após adquirir o lote, Leão deixou Fortaleza por dois anos para realizar um curso profissionalizante no Rio de Janeiro. Quando retornou, em 1979, os indígenas já haviam sido completamente retirados do local. O cenário de violência institucional havia se consumado. "Os pessoal não dava mais ninguém aqui, já tinham expulsado e com certeza foi a imobiliária que expulsou”, acusa.

 

Foi nesse mesmo ano que começou a erguer sua casa, tornando-se um dos pioneiros a se estabelecer legalmente e a ver o bairro ganhar forma a partir de picadas abertas na vegetação.

O rio, porém, continuava presente no cotidiano da comunidade.

O rio que sustentava e a crOnica da destruiCAo

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O Maranguapinho da juventude de Seu Leão em nada lembrava o canal poluído dos dias atuais. Era um ecossistema vivo, que pulsava em sincronia com as necessidades básicas de subsistência dos moradores.

 

Leão lembra das pescarias que fazia ao lado do pai nas águas do Maranguapinho. Na época, conta, era possível observar os peixes nadando sob a superfície e lançar a tarrafa acompanhando seus movimentos. As margens do rio serviam de encontro para moradores e de fonte complementar de alimento para muitas famílias.

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As poucas ocupações existentes se concentravam em áreas que hoje correspondem à Beira Rio (chamada na época de Caprindinha) e à Veneza. Na rua onde vive atualmente, ainda não havia praticamente nenhuma habitação. Ruas não tinham nome. O que existia eram trilhas abertas em meio à vegetação e terrenos identificados apenas por códigos e números de loteamento.

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A ruína ecológica do Maranguapinho tem data de início na cronologia de Seu Leão. A transformação, segundo ele, começou a mudar drasticamente a partir de 1983. O ponto de inflexão foi a instalação do Conjunto Ceará e de indústrias periféricas que passaram a tratar o curso d'água como uma lixeira industrial subterrânea. 

 

Em menos de cinco anos, entre 1979 e 1984, a comunidade assistiu à morte veloz de sua principal referência natural. A partir dali, a água perdeu a transparência que permitia enxergar o fundo do rio. Depois o forte mau cheiro e os resíduos carregados pela correnteza. As pescarias se tornaram inviáveis e o peixe, que antes complementava a alimentação das famílias, passou a despertar total desconfiança.

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Atualmente o rio possui dejetos e objetos descartados por toda sua expansão.

Foto: Grasieler Martins.

"O rio ficou sujo depois que fizeram o conjunto distrital e outras indústrias ao seu redor, que também jogaram os dejetos no rio. A partir de então, ficou até impossível você comer peixe lá, porque a gente não tinha apetite de pegar um lá", protesta. 

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Quatro décadas após o início desse processo, a situação atual do Maranguapinho acumula os reflexos de um crescimento urbano acelerado e desigual. 

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​A expansão do Genibaú, segundo o pioneiro, foi agravada por omissões técnicas e pela exploração política da miséria. Ele relembra que, enquanto a primeira e a segunda etapas do Conjunto Ceará contaram com um planejamento inicial de esgotamento sanitário, a terceira etapa e as ocupações subsequentes ocorreram de forma totalmente descontrolada. 

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"A terceira etapa já foi meio descontrolada. Já tem um dejeto direto para o rio. O próprio esgoto do Genibaú foi descontrolado. Eles fizeram as estações, mas essas estações foram tendo invasões", denúncia.

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Para Gabriela Appleyard,  arquiteta e urbanista, especialista em Paisagismo, a degradação observada no Genibaú não é um fato isolado, mas o resultado de um modelo histórico de urbanização que avançou sem a expansão proporcional da infraestrutura de saneamento e que, por muito tempo, enxergou os cursos d'água como espaços residuais ou simples canais de drenagem.

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 "Essa visão contribuiu para a ocupação inadequada das margens e para a utilização dos rios como receptores de esgoto e resíduos", explica a especialista.  

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Canos de esgoto que são levados diretamente para o rio.

Foto: Grasieler Martins.

​Hoje, além do esgoto doméstico e industrial visível, o rio sofre com a chamada poluição difusa. Gabriela explica que esse fenômeno "é gerado pelas atividades cotidianas da cidade, como resíduos de combustíveis, óleos lubrificantes, partículas provenientes do desgaste de pneus, poeira urbana e outros contaminantes que se acumulam sobre superfícies impermeáveis e são transportados pelas chuvas até os corpos hídricos".  


​O impacto direto disso se reflete no dia a dia de quem tenta conviver com o rio. Seu Leão conta que a degradação e o lixo acumulado afetaram diretamente a saúde e o lazer dos moradores: "O mosquito, que inclusive toda a beira do rio ficou infestada. É terrível". Ele lembra que tentava usar a estrutura do entorno para sua saúde, mas as condições ambientais impediram: "Eu ia para aquele calçadão, eu fazia minha caminhada. Eu deixei de fazer por causa do mau cheiro".  


​A experiência não é exclusiva dele. Poucos metros dali, a rotina de Marilene Rocha, conhecida na vizinhança como Dona Irene, 65 anos, evidencia o lado mais desumano da degradação socioambiental. Morando de aluguel em uma casa humilde perto do canal, ela convive diariamente com a precariedade e o avanço da fauna nociva atraída pela sujeira do rio. "As catitas andam assim, por aqui, sabe? Perturbamos de noite", relata, referindo-se aos ratos que invadem o espaço e que a obrigam a improvisar armadilhas com baldes d'água para conseguir dormir.

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Dona Irene tem um pequeno bazar em que vende roupas para ajudar com as necessidades básicas.

Foto: Grasieler Martins.

​Além do convívio com os bichos, Dona Irene carrega as marcas físicas e psicológicas das cheias do Maranguapinho, que escancaram a vulnerabilidade da saúde e da moradia na periferia. Ela relembra com dor uma das enchentes em que a água invadiu a residência de madrugada: "A casa encheu d'água, mais ou menos desse tanto. Quando eu me acordei, tava nessa dita rede aqui, deitada. Entrou água aqui até aqui em mim e eu me acordei". 

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Naquela noite, a força do rio levou o pouco que ela possuía, incluindo geladeira e televisão. Mesmo em dias de sol, o medo é constante, pois basta uma sequência de chuvas para que o canal atinja o limite, forçando os vizinhos a abandonarem suas casas para buscar abrigo com conhecidos.  

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​A percepção de abandono de quem vive no local, no entanto, esbarra nos dados oficiais. Questionada sobre as condições da região, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) afirma que o local “já dispõe de sistema de esgotamento sanitário, que se encontra em operação". Inclusive na rua Moçambique e suas adjacências, o órgão assegura que a rede coletora já está implantada e disponível.

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​Para justificar o esgoto que ainda corre a céu aberto e contamina o Maranguapinho, a companhia aponta a responsabilidade para a própria comunidade: segundo os dados da empresa, existem atualmente 313 imóveis regulares na área que, mesmo com a rede disponível, não estão conectados a ela. 

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A Cagece alega que o uso de "soluções alternativas de disposição de esgoto, como fossas sépticas ou outras formas inadequadas de descarte – como o lançamento direto no riacho", são os fatores que contribuem para a contaminação do solo, dos lençóis freáticos e dos mananciais. 

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Para reverter isso, a companhia afirma realizar visitas contínuas de sensibilização e orientação. Além disso, em pontos específicos como a Rua do Rio e a Rua das Pedrinhas, uma parceria entre a Ambiental Ceará e a Consultoria Moreira Lima (Comol), responsável pela requalificação do rio, tem feito a verificação de locais irregulares e a implantação de novas redes.

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Lixo na beira do rio.

Foto: Grasieler Martins.

A reportagem também entrou em contato com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) para compreender quais ações estão sendo desenvolvidas em relação ao rio Maranguapinho e aos problemas relacionados ao esgoto e à poluição. A instituição foi procurada para contribuir com informações sobre as iniciativas em andamento, mas não houve retorno até o fechamento deste trabalho.
 

Mesmo diante desse cenário, tanto o morador quanto a especialista convergem na esperança de um futuro diferente. Seu Leão, que hoje integra movimentos comunitários locais, aposta na mobilização popular: "Eu acho que o morador, quando ele quer, vale a pena. Se aquela turma lá do rio se levantasse e protestasse, ele fazia o melhor, com certeza", afirma. 
 

Da mesma forma, Gabriela defende que, apesar dos desafios, "o Maranguapinho possui enorme potencial para se tornar um elemento estruturador da adaptação climática, da qualidade ambiental e da requalificação urbana", deixando de ser encarado como um mero canal de escoamento.  
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Segundo a especialista, a recuperação do Maranguapinho é possível, especialmente se compreendermos que esse processo ocorre de forma gradual e por diferentes níveis de uso e qualidade ambiental.

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Placa feita pelas crianças em frente a Vila Social Genibaú.

Foto: Grasieler Martins.

Ela ressalta que o foco inicial não precisa ser o contato direto com a água: "É perfeitamente possível avançar na recuperação do Maranguapinho por meio de usos que não exijam contato direto com a água, como a contemplação da paisagem, a valorização dos espaços públicos, atividades educativas, a ampliação da biodiversidade e a melhoria ambiental das margens". 


Amparada por metas como as do Marco Legal do Saneamento até 2033, essa mudança gradual traria um alívio imediato e perceptível: "Mesmo antes de uma recuperação completa, já seria possível alcançar benefícios significativos para a população, como a redução ou eliminação do mau cheiro associado ao esgoto". 


Para ela, o caminho para salvar o rio depende tanto de investimentos estruturais e articulação interinstitucional quanto do reconhecimento dos saberes locais e do protagonismo das comunidades. 

Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo II do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: prof. Edgard Patrício | Semestre 2026.1

Curso de Jornalismo da UFC

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E-mail: coordenacaojornalismo@ufc.br

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