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A casa cabe no projeto? 

No Genibaú, moradores tentam adaptar suas vidas a um desenho urbano que chega pronto

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Por Clara Klink

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O Canal 4 se tornou o quintal de parte dos imóveis do Genibaú.

Foto: Grasieler Martins.

No Genibaú, na zona oeste de Fortaleza, 191 imóveis poderão ser reassentados nos próximos anos para dar lugar às obras realizadas pelo Governo do Estado do Ceará. O programa é o Periferia Viva, iniciativa federal que prevê intervenções de urbanização e saneamento nos afluentes do rio Maranguapinho, divulgado dia 16 de março de 2026. Embora o projeto represente uma nova tentativa de enfrentar problemas ambientais da região, moradores recebem o anúncio com desconfiança, marcada por quase duas décadas de promessas e obras que nunca chegaram a transformar a realidade do bairro.
 

Se nas décadas passadas o foco do Projeto Rio Maranguapinho concentrou-se na calha principal do rio, resultando em remoções massivas e na construção da barragem, a mira agora são as  ramificações secundárias. São 8,16 quilômetros (km) de canais que serpenteiam por áreas densamente ocupadas entre Fortaleza e Caucaia, onde a vida urbana e o curso hídrico se confundem em meio à ausência de saneamento.
 

A proposta, selecionada dentro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carrega um orçamento de R$ 83 milhões. O objetivo é que o projeto implante redes de esgotamento, recupere o meio ambiente e requalifique espaços públicos. No entanto, para os moradores que acompanham o avanço dos técnicos e as perguntas dos pesquisadores, o plano parece insuficiente para resolver o cenário no Genibaú. Nas reuniões comunitárias, demandas como a implantação de uma escola de ensino médio no bairro e o retorno de uma unidade do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) para dentro do território aparecem com frequência entre as reivindicações da população.
 

Mesmo que, desde 2008, as margens do rio Maranguapinho tenham passado por melhorias, a paisagem do Genibaú pouco mudou. De acordo com a  Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará (Cagece), o bairro possui 82,75% de cobertura de rede de esgoto. Dos que possuem rede, ainda existem 4.759 que precisam se conectar ao sistema de esgotamento sanitário. Desse número, 313 imóveis estão ao redor do rio Maranguapinho e descartam seu esgoto diretamente nas águas dos afluentes, sem tratamento. 
 

A ligação dos imóveis à rede coletora é uma etapa que depende dos proprietários, responsáveis pelas adaptações necessárias dentro dos terrenos. No Genibaú, porém, essa exigência esbarra na realidade socioeconômica do bairro. Para famílias que convivem com menos de um salário mínimo por mês, o investimento necessário para a conexão ao sistema de esgoto não é uma prioridade, o que prolonga a presença de ligações irregulares e o despejo de esgoto nos cursos d'água da região. 

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Devido a falta de ligamento da rede de esgoto, o material é despejado diretamente nos afluentes.

Foto: Grasieler Martins.

Embora os estudos preliminares apontem a necessidade de intervenção no Genibaú — área do Canal 4 do projeto —, muitos moradores não acreditam que de fato o dia de deixar suas propriedades irá chegar, ou não concordam em deixar a comunidade. A incerteza sobre o futuro das famílias deságua em um paradoxo: para acessar direitos há muito reivindicados, parte dos moradores poderá precisar abrir mão do lugar onde construiu sua história. A promessa de transformação urbana chega acompanhada do risco de romper vínculos e rotinas.


Agora, sob o selo do Periferia Viva, o Estado tenta articular saneamento e mobilidade, mas enfrenta o desafio de recuperar a confiança da população. E, no fim, uma pergunta que ecoa nas calçadas do Genibaú permanece sem resposta: quem poderá ficar para ver o novo bairro nascer?

Vozes das margens

Sandra Mendes, de 52 anos, é dona de um comércio de bairro na rua Carlos Augusto, onde estão localizados os imóveis à margem do Canal 4. Além de comerciante, ela também é professora e líder comunitária do Genibaú. Desde sua chegada ao bairro, há 14 anos, sempre lutou para que os moradores buscassem melhorias no território. As tentativas de melhorar a quantidade de lixo pelas calçadas renderam sucessos e fracassos.


Assim que chegou, os vizinhos começaram a estranhar o comportamento de Sandra. Todos os dias, pela manhã, ela se equipava com uma vassoura e pá e passava a limpar as calçadas da rua Moçambique. Por um período, a estranheza foi campeã de uma disputa silenciosa contra a sujeira, mas aos poucos, mais pessoas começaram a se juntar. Hoje em dia, não é incomum que as ações de limpeza em sua  rua recebam mais apoiadores.


Mas, esse cenário logo mudará. A casa onde Sandra mora, com o marido e dois filhos, é uma das casas que sofrerão intervenções. Parte do quintal, que dá diretamente no rio, precisará ser removido para respeitar a distância de dez metros de margem livre. Para ela, ao contrário dos vizinhos que acreditam que o projeto é só conversa de ano eleitoral, ele está materializado e não se opõem à intervenção. A principal preocupação é que a população consiga ter uma participação ativa no processo e reivindiquem suas necessidades no território. “Tem gente que já chega falando que vai processar pra poder ficar por aqui, e isso vai deixar mais demorado o processo. Mas as pessoas têm medo de perder tudo o que investiram em uma vida e irem para longe”, conta. 


Uma dessas pessoas mora a poucos passos do comércio de Sandra, a uma ponte improvisada de distância. Aos 55 anos, Benedita Costa mora sozinha em uma palafita erguida sobre o Canal 4. Para chegar até a porta de casa, é preciso atravessar um caminho improvisado com tábuas de madeira, construído pelo sobrinho, solução comum em vários trechos às margens do Maranguapinho. Quando ouve falar em reassentamento, não pensa primeiro na nova moradia, mas no que deixará para trás.

“Eu tô aqui há trinta anos, vim com meus pais. Eu tenho a minha irmã que fica perto. Eu gosto daqui, é calmo. E se eu sair pra onde eu vou? Pra um hotel? Pra longe? Não tem essas informações ainda, não sabe como vai ser a indenização. Aqui eu conheço todo mundo, não quero sair e ter que conhecer de novo”, lamenta.

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Casa de Benedita, acima do curso do rio.

Foto: Xaio Mar Lopes.

De acordo com Maria Jevane Pessoa, assistente social do Periferia Viva, as realocações não são imediatas. "A previsão é que as obras comecem primeiro no Quintino Cunha, onde o processo habitacional já está mais avançado. Depois, a intervenção seguirá pelos demais canais até chegar ao Genibaú. A estimativa é de dois a três anos”, contou. 
 

As reuniões com a comunidade para tratar sobre essas intervenções são realizadas uma vez ao mês, com assistentes sociais e pesquisadores do programa Periferia Viva, que possui uma sede territorial no bairro a fim de facilitar o diálogo entre o poder público e a população. Mesmo assim, os encontros programados sofrem com baixa adesão. Na última reunião, dia 7 de maio, o local passou por alterações em cima da hora e ficou mais distante da rua Moçambique. “Eu fui na primeira reunião sobre a obra, mas nessa última não consegui ir. Quando fica longe a gente para de ir, e com muita gente que não quer nem sair daqui, aí ninguém vai mesmo”, afirma Benedita.
 

Mesmo a passos lentos, o diálogo parece surtir efeito. Na reunião Sandra conseguiu que o projeto implementasse uma demanda que há anos os moradores pediam. “Desde antes da pandemia, tava pra ser construída uma ponte por cima do canal, para poder atravessar com segurança, mas aí nunca aconteceu. E agora na última reunião, eles colocaram no projeto para acontecer quando estiver na etapa de revitalização”, conta, recorrendo ao termo usado pelo poder público para nomear a intervenção. A palavra, porém, sugere devolver vida a um lugar que já a tem. O Genibaú é um território de vínculos e histórias, e os moradores reivindicam condições dignas para a vida que ali habita.

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Uma das pontes improvisadas na altura da Rua Carlos Augusto.

Foto: Grasieler Martins.

Outras reivindicações também são discutidas na Sede Territorial do Periferia Viva. Fátima Silva, chamada de Fatinha na comunidade, é vizinha de Sandra na rua Moçambique, reclama que a retirada do Cras também dificultou o acesso aos serviços e direitos por parte da população. O espaço que antes era no Genibaú, passou a ter sede no bairro Conjunto Ceará, a 1,9 km de distância


O problema é que, dentro do mesmo bairro, existem “poderes paralelos” que impedem as pessoas de ir e vir tranquilamente. Um morador da rua Moçambique, que preferiu não se identificar, disse que a presença do crime organizado na região dificulta o acesso às reuniões e gera ressalvas em moradores que precisarão sair do bairro. A preocupação é a inserção em territórios com facções criminosas opostas à do Genibaú, o que poderia resultar em retaliação ou no impedimento de morarem nessas regiões.


O dilema de ser forçado a sair e enfrentar um território hostil divide espaço com a angústia de quem fica e continua vulnerável às águas.


Já para Ana Carolina Chagas, ou Carol, como é conhecida, tudo isso parece um rio de incertezas. Com a chegada da temporada de chuvas em Fortaleza, a casa onde morava ficou inóspita pelas enchentes. Atualmente, ela mora em um conjunto residencial, enquanto aguarda o fim do período chuvoso. Mesmo com o rio à porta, a casa dela não sofrerá nenhuma intervenção. A esperança que resta é que as obras do novo projeto consigam melhorar o escoamento do rio durante as chuvas.

Duas decadas de intervencoes

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A apreensão que hoje ecoa pelas ruas e calçadas do Genibaú não surge em um vácuo. O medo de deixar as próprias casas reflete uma política contínua iniciada há quase vinte anos na bacia do rio Maranguapinho, a principal área de risco de inundação na Capital.
 

Desde o final da década de 2000, um complexo projeto de infraestrutura e engenharia ambiental vem reescrevendo a geografia de mais de 40 bairros. O marco inicial dessa transformação ocorreu em 2008, quando o Governo do Ceará inseriu o projeto nas verbas do PAC. A missão oficial era urgente: ampliar a calha de escoamento e erradicar os desastres causados pelas fortes chuvas nos municípios de Fortaleza, de Maracanaú, de Maranguape e de Caucaia.
 

A pressão por uma intervenção na bacia do Maranguapinho, no entanto, é anterior ao PAC. O professor Renato Pequeno, coordenador do Laboratório de Estudos de Habitação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do Observatório das Metrópoles, conta que o projeto nasce de décadas de mobilização de comunidades atingidas pelas enchentes. Desde os anos 1990, organizações sociais e moradores denunciavam a situação de famílias que, a cada período chuvoso intenso, sofriam com enchentes e alagamentos em suas casas. 
 

A mobilização resultou na criação de fóruns e articulações comunitárias que buscavam chamar atenção para a situação das populações que moravam às margens. Uma das iniciativas foi o Fórum das Áreas de Risco, espaço que reunia moradores e organizações para reivindicar políticas habitacionais e urbanas. Também surgiu nesse período o Consórcio do Corredor Ecológico do Rio Maranguapinho, que defendia intervenções integradas ao longo de toda a bacia hidrográfica, Foi esse acúmulo de reivindicações que abriu caminho para que o Maranguapinho fosse incluído entre os grandes projetos financiados pelo Programa de Aceleração do Crescimento a partir de 2008.

Nos anos seguintes, o Estado dragou toneladas de sedimentos, alargou 44 km do rio, asfaltou novas vias paisagísticas e ergueu, em 2013, uma Barragem de Contenção de Cheias em Maracanaú, capaz de represar 9,3 milhões de metros cúbicos (m³) de água. Mas a transformação do rio não aconteceu apenas sobre a água. Para abrir espaço às obras, milhares de famílias precisaram deixar as margens do Maranguapinho, inaugurando um processo de reassentamento que ainda hoje marca a memória de muitas comunidades da bacia. 

Para viabilizar a macrodrenagem, mais de seis mil moradias foram desapropriadas. O Governo estruturou uma das maiores operações habitacionais do Estado, destinando os atingidos a 14 conjuntos residenciais diferentes. 

Processos dessa magnitude raramente ocorrem de forma tranquila. Moradores mobilizaram-se inúmeras vezes, questionando o valor subestimado das indenizações e os critérios de remoção. O ponto mais sensível e temido hoje pelos moradores do Genibaú, são os impactos da transferência abrupta. Muitas famílias foram realocadas para complexos habitacionais longe de sua origem, causando um distanciamento de suas redes sociais, de emprego e de locomoção.

 

Tentando estancar as preocupações das áreas limpas, em 2021 o Estado criou a Área de Proteção Ambiental (APA) do Maranguapinho e instalando longas cercas de gradil nos trechos concluídos. 

A desigualdade nAo cabe nos mapas

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Para o professor Renato Pequeno, os processos de reassentamento em Fortaleza esbarram em dificuldades históricas de articulação entre Estado e Município. Uma das possibilidades previstas para enfrentar esse desafio, segundo ele, permanece sem aplicação prática.


“As Zonas Especiais de Interesse Social do Tipo Vazio são os espaços na cidade de Fortaleza que têm infraestrutura urbana e que podem ser demarcados e definidos como áreas de interesse social, justamente para atender esse tipo de demanda. Está presente no Plano Diretor de Fortaleza desde 2009 e até hoje nunca foi utilizado”, afirma.


Para o pesquisador, a utilização dessas áreas poderia ampliar as possibilidades de reassentamento próximo aos territórios de origem, reduzindo os impactos causados pelo deslocamento de famílias para regiões distantes.


Mas o cenário encontrado no Genibaú não se restringe às margens do rio Maranguapinho. Os problemas urbanos e sociais observados no bairro atravessam Fortaleza e sua região metropolitana, revelando desigualdades que estruturam o crescimento da capital cearense. Enquanto bairros centrais e da porção leste concentram investimentos imobiliários e os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), áreas periféricas convivem com déficits históricos de infraestrutura, saneamento e renda. Na mesma cidade, enquanto há bairros com rendas médias mensais de R$ 14 mil, há bairros que em mensalmente não recebem um salário mínimo.


“Quando a gente olha para a paisagem de Fortaleza e vê esses super prédios, simboliza que tem alguém na cidade que está concentrando mais riqueza. Quanto foi o investimento no Genibaú? E quanto sai o investimento de um super prêmio? Quantas famílias são beneficiadas com um e com outro? Tem imóveis em Fortaleza que o custo do metro quadrado é de R$ 21 mil. Enquanto isso, uma unidade do Minha Casa, Minha Vida pode custar R$ 140 mil o imóvel’’, pontuou.


Para o professor, a solução para essas disparidades ultrapassa obras pontuais de urbanização e habitação. “A saída para isso passa pela distribuição de renda, passa por uma atuação focada para que a gente viva em uma cidade que seja socialmente mais justa. Enquanto isso não houver, a gente tem a tendência de aumentar esses problemas. A gente fica com a impressão de estar enxugando gelo”, diz.

Enquanto o cronograma prevê que as obras ainda levarão alguns anos para chegar ao Genibaú, a vida segue às margens do Maranguapinho. Sandra continua mobilizando os vizinhos em ações comunitárias. Benedita ainda não sabe quando sairá de sua casa, e Carol não sabe quando poderá voltar. Entre promessas, plantas e reuniões, o futuro segue sendo um território em disputa.

Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo II do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: prof. Edgard Patrício | Semestre 2026.1

Curso de Jornalismo da UFC

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