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COSMOLOLGIAS DO NASCIMENTO DE UM RIO

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Antes de ser uma das maiores bacias hidrográficas do Ceará, o rio Maranguapinho foi homem

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Por Grasieler Martins

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Os documentos históricos guardam sesmarias, datas de conflitos coloniais e as alterações cartográficas que modificaram o território. Não guardam o desenho de seu rosto. Não se sabe se os lábios dele eram finos, se as íris dos seus olhos eram azuladas opacas em decorrência da cegueira que lhe acompanhou ao decorrer da idade ou se o nariz ostentava o contorno imponente que a iconografia ocidental costuma atribuir aos líderes guerreiros no imaginário.

Dos poucos registros sobreviventes, sabe-se que foi o líder aguerrido dos povos Tupis, cuja autoridade estendia-se por uma vasta faixa do litoral brasileiro, indo desde o Rio Grande do Norte ao atual bairro da Barra do Ceará, em Fortaleza, e avançando adentro do Piauí. Era chamado de guerreiro sábio.

O que restou do homem foi a fabulação de que, muito antes de qualquer cartório atestar que aquele chão da Serra de Maranguape existia, ele já caminhava por seus contornos elevados sentindo a umidade da terra e a pressão sutil dos matagais no arco abaixo da epiderme de seus pés.

Existem suposições de que a própria denominação dessas terras germinou de sucessivas mutações do seu nome, em um desenho de linguagem mastigado vagarosamente pelo tempo. A transição da terminologia foi lenta. Passou por Maragoape, com o significado de “mato fechado, cerrado”, até se assentar em Maranguá-pin, que, no tupi, carrega o peso de “vale da batalha”. Cada derivação de suas grafias foi marcada por disputas simbólicas pelo território em oposição aos invasores holandeses e portugueses, até, enfim, desaguar em Maranguape (mara-goá-pe), “baixa da batalha”.

MARAGOAPE

MARANGUÁ-PIN

MARA-GOÁ-PE

MARANGUAPE

MARANGUAB

Após uma longa peregrinação vinda do Rio Grande do Norte, na época seiscentista, o líder guerreiro Maranguab estabeleceu em conjunto com outros de sua aldeia como povoadores inaugurais daquelas terras. Ocuparam a Outra Banda, ainda na subida da serra, e fincaram a vida à beira das águas, um pouco distante de onde a paisagem era um manto denso de mata fechada e cerrado. Ele e os seus ficavam nos pontos mais altos e protegidos da cordilheira. Naqueles cumes expressavam o desejo de proteção para si e para os cultivos do milho, do feijão e da mandioca. 

Faziam celebrações rituais integradas ao calendário da própria terra, divididos entre o tempo de semear e o de colher. Nas épocas de transição da terra, a comunidade se mobilizava em uma movimentação que os reconfigurava. Parentes que residiam distantes retornavam para essas grandes festanças. Era tempo do cacique rever antigos compadres, firmar alianças e partilhar afetos. Quando as noites de celebração chegavam, a comunidade inteira se unia em torno das primeiras fogueiras para saudar os ciclos do céu.

Sua rotina se fazia, em partes, acompanhando o processo de coivara e a limpeza dos terrenos pedregosos e rasteiros, os ariscos. Maranguab acompanhava o ciclo das chuvas pela floração das árvores e pelo início da frutificação. Ou quando captava com os olhos e o cheiro da revoada de saúvas. À beira dos riachos, seus passos cruzavam com os das mulheres que apanhavam crustáceos contra a correnteza. 

A temperança do homem não se media pelos confrontos encontrados nesse meio de caminho pelo litoral brasileiro. Ele era descrito como um “sabedor da guerra” justamente porque sabia evitá-la, e, conduzindo seu povo com paciência. Sua personalidade estava na serenidade passada para os outros nos períodos de estiagem. 

À noite, a fumaça das brasas subia a colina, enquanto o cacique mantinha viva a circulação de dádivas e a simbiose com o solo que os alimentava.

Diz o poema que o sol beijou seu camocim cheiroso no topo daquele pícaro alteroso. A terra que o mar banha era sua até trocar o barulho das ondas pela quietude da verde serra, onde a água salta sob o céu radioso.

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Quando as pernas pesaram e os olhos perderam a capacidade de enxergar as linhas do horizonte, o guerreiro, já idoso, arrastou os passos cansados para o miolo da terra. Subiu a cordilheira até encontrar uma fenda escura. no silêncio mineral da gruta, ocorreu o seu encante. Maranguab desfez-se da casca humana. Deitou, deixou que as formigas cobrissem seus membros, liquefez sua carne e dissolveu seus próprios ossos na rocha. Onde antes pulsava sangue do potyguara, foi cedido um espaço para que ele brotasse na nascente como água.

Encantar-se não é morrer. É tornar entidade guardiã que, após a morte do corpo que habita, passa a residir no mais profundo dos rios, mares e matas, transitando para outro plano dentro do já conhecido, como um ser sagrado com poder de cura, proteção do território e equilíbrio dos ecossistemas.

Deixando os limites de Maranguape para descer a serra, o rio-entidade de água faz-se retirante e segue um fluxo entre muitas localidades diferentes do Ceará. Maracanaú, Fortaleza e Caucaia. Ele enfrenta dificuldades de permanência pelos entraves criados pelo homem. Seria todo o entorno, também, membro do rio?

Séculos depois do encante, o Maranguapinho encontra muitos outros conterrâneos que deixam suas águas volumosas, entre eles, as torrentes espumosas e químicas que vêm da mangueira de um lava-jato à direita da rua Moçambique, localizado no bairro Genibaú, de Fortaleza. Sob o mormaço da periferia, longe da gruta, homens embriagados mergulham no leito ao amanhecer para lavar o juízo, e crianças usam da beirada assoreada como tabuleiro brincante. Para todos eles, a água que outrora foi cacique tornou-se o único quintal possível. 

Desafiando as margens estreitas, o rio segue seu escoamento denso, atravessando pontes e tijolos envoltos do seu leito, até finalmente desaguar no mar. Ele desembocam com o rio Ceará, que se mistura ao sal da Barra do Ceará, acumulando o seu começo do mundo com a continuidade impermanente do presente.

Os pingos de chuva caem nas áreas elevadas da serra, a água infiltra-se no solo e é armazenada nos aquíferos. Quando o solo não consegue absorver esse volume, a carne e os ossos dissolutos de Maraguab se espalham na superfície em pontos chamados de olhos d’água. Pequenos filetes de água se unem, ganham corpo e descem a montanha. É exatamente assim, transbordando do camocim da terra, que nasce um rio.

 

Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo II do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: prof. Edgard Patrício | Semestre 2026.1

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