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Em um dos bairros com mais templos religiosos de Fortaleza, devotos possuem incertezas acerca da urbanização de seus arredores

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Por Xaio Mar Lopes

A FE DESAGUA EM TODOS, MENOS NO CANAL

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Genibaú é o bairro com mais templos religiosos da Regional 11.

Foto: Grasieler Martins.

“Esperavam por mim
como quem espera
por uma chuvarada
e bebiam minhas palavras
como quem bebe a chuva
da primavera.”
Jó 29:23

As religiões possuem a água como um simbolismo em comum. Para o catolicismo, é o aparecimento de Nossa Senhora Aparecida no rio, com os evangélicos a chuva é considerada bênção e, se tiver trovoadas, em algumas linhas de matrizes africanas, significa a chegada de Xangô. Na noite de 18 de abril de 2026, Perpétuo Socorro rezava enquanto a chuva tocava o chão terroso da Travessa Moçambique, no bairro Genibaú, em Fortaleza. Mas o momento que podia ser de benção, logo tornou-se maldição, pois a água estava entrando na sua residência.

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Era a chegada da segunda maior chuva registrada de Fortaleza no ano de 2026. A cidade registrou, no dia 18 de abril, média máxima de 123 milímetros (mm), de acordo com dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Quando Perpetua sentiu a água chegando, já sabia o que tinha que fazer: bateu de porta em porta dos irmãos e irmãs, como ela chama, para alertar sobre a enchente. 

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A Travessa está localizada em frente ao canal 4, um dos afluentes do rio Maranguapinho que passará pelo projeto de urbanização. Embora a chuva tenha atingido as casas, os comércio e as igrejas, queimando até a geladeira de Perpétuo, as duas pontes, feitas pela comunidade da Igreja Adventista pelo Sétimo Dia, continuaram de pé. 

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Às 8h30min da manhã do dia seguinte, Socorro seguiu como de costume para o culto. Segundo ela, essa ocorrência já é comum em tempos de chuva. “Só vivem falando de reforma. Toda vida fala, mas nunca fazem”, desabafa.

 

A igreja que Socorro frequenta é um dos 91 templos religiosos do Genibaú. Para a Regional 11, composta pelos bairros Autran Nunes, Bela Vista, Conjunto Ceará I, Conjunto Ceará II, Couto Fernandes, Demócrito Rocha, Dom Lustosa, Genibaú, Henrique Jorge, João XXIII, Jóquei Clube, Panamericano e Pici, o Genibaú se destaca com região que mais concentra estabelecimentos religiosos. 

 

Na malha geográfica de Fortaleza, o bairro está em 11º lugar. Os dados foram cruzados com o Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (Cnef) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 

Para os templos próximos ao canal 4, a incerteza dos caminhos que o processo de urbanização do Maranguapinho permanecem. Mesmo assim, a comunidade segue e mantém as suas atividades espirituais. A crença prevalece, mas os religiosos perdem, cada vez mais, a fé de que o projeto vai acontecer.

POR ONDE O CABOCLO VAI ATRAVESSAR?

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Os filhos de santo, junto ao pai, checam os materiais e as suas salas destinadas.

Foto: Xaio Mar Lopes

“Na minha aldeia
lá na Jurema
não se faz nada
sem a lei suprema.”
Ponto do Caboclo Rompe Mato e Arranca Toco

A Travessa Olímpica é uma das faixas que estão previstas para o realocamento de imóveis. Na lateral próxima ao final da Vila Social do Genibaú — antes chamada de Vila Olímpica — um galpão permanece fechado até às 16 horas de uma quinta-feira. Quando o Pai Marcos Paulo, de 42 anos, chega para abrir o portão, o Centro Espiritual de Umbanda (CEU) Aldeia do Caboclo Arranca Toco se torna visível para a comunidade. 

 

Caboclo Arranca Toco dialoga a umbanda com a espiritualidade indígena. A entidade é vista como um grande guerreiro e curandeiro que trabalha com a energia da terra e da mata para promover a cura, a proteção e a abertura de caminhos. “Arranca Toco um índio da mata. Ele é do casco, trabalha com o machado e o nome de Xangô também, orixá da pedreira e cachoeira”, apresenta Paulo. 

 

As sessões espirituais, conhecidas como giras, acontecem às 19 horas, mas existem rituais que um Pai de Santo precisa fazer antes. Preparar o fogo, acender as velas, cobrir a casa de Exú e, no caso deste centro em particular, passar o pano para enxugar o chão molhado. Marcos Paulo realiza esse trabalho há seis meses, após a saída de seu Irmão de Santo do comando do terreiro.

 

Fazia poucos anos que o local existia em uma casa no final da travessa, de encontro com a rua Francisco Edilson Silva. “Aí eu fui e continuei, mas alugando esse novo espaço, aqui vai fazer um ano de existência. Sou morador do bairro mas eu vim através da minha mãe de santo, entendeu? Porque ela já tem terreiro há muito tempo na região”, conta enquanto acompanha a chegada dos filhos de santo para ajudar. 

 

Maria do Roco, de 83 anos, é mãe do terreiro Princesa Janaína e Caboclo Zé Pilintra, localizada na rua Beira Rio. Esse centro religioso não está no levantamento do cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (Cnef), como outros que ou surgiram após a pesquisa ou não foram encontrados.

Pai Marcos Paulo tem certa noção sobre a urbanização do rio Maranguapinho e seus afluentes. Sabe que o terreiro de sua Mãe de Santo não será afetado, mas não tem certeza se o CEU Aldeia do Caboclo Arranca Toco será realocado. A grande incerteza está no uso do imóvel por ser alugado e ele não ser o dono.

 

Wendel Carlos, de 45 anos, é o proprietário do galpão onde está o terreiro. É morador do bairro desde que nasceu, comprou o terreno em 2022 e passou a construí-lo. Em fevereiro do ano de compra, a Travessa Olímpica era apenas uma faixa de vegetação, onde o canal era possível de ser visto. A partir de 2024, o cenário mudou: os coqueiros foram retirados e deram lugar para casas, galpões e lojas. 

Esse surgimento de imóveis é constante na região. O Cnef mapeou 247 edifícios em construção, novamente o bairro lidera em relação aos outros territórios da Regional 11. 

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Futuramente, é possível que a Travessa retorne a não ter mais imóveis, já que o trajeto está incluído no plano de urbanização do canal 4. Contudo, Wendel não acredita na concretização desse projeto. “Fiquei sabendo mas não acredito muito nisso não, já falaram outras vezes e estamos em ano eleitoral, aí já sabe”, fala.

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Em contato com o Instituto Perifa Viva, eles informam que o chamamento público foi aprovado e a execução do projeto já está em curso. No caso, o Chamamento Público Nº 001/2024/SCIDADES, com o objetivo de selecionar uma Organização da Sociedade Civil (OSC) para celebrar Termo de Colaboração, visando à execução do Plano de Ação Periferia Viva – Afluentes do Rio Maranguapinho foi contemplada a OSC Associação Somos Um, no dia 16 de julho de 2025.

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 “Essa obra já ganhou, né? Pode até atrasar, mas o programa vai existir e vai ter que acontecer. Eles estão desacreditados porque, logo, vai ter eleição. Então, estão achando que esse movimento todo é para ganhar votos”, detalha Maria Jevane Pessoa, assistente social do Periferia Viva.
 

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As marcas de cupim atravessam as imagens de santos e pretos velhos.

Foto: Xaio Mar Lopes.

Além do Wendel, os filhos de santo do CEU Aldeia do Caboclo Arranca Toco também não possuem crença de que o terreiro passe pela realocação. O galpão passa por problemas como a falta de drenagem e a chegada de cupins, mas não há incidências de enchentes. Uma das filhas que estava presente, solta um grande “nam” em resposta se queria que fosse realocado.

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Em terreiro que promove abertura de caminhos, a expectativa para quem frequenta é que o espaço permaneça e seja usado para ações com a comunidade, como a festa de São Cosme e Damião, que acontece no mês de setembro.
 

DE FORA DA TERRA PROMETIDA

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Pelas semanas, o culto acontece pelo horário da noite.

Foto: Grasieler Martins.

Às 7h30min da manhã de um sábado, a Igreja Adventisma do Sétimo Dia abre suas portas e se prepara para dois momentos: a escola sabatina e o culto. Para entrar na sala é necessário subir dois degraus de escada, o que previne, muitas vezes, as enchentes de atingirem o espaço. Mesmo assim, as marcas descascadas na parede indicam um templo religioso que ainda não passou por reformas.

 

Entre os fiéis, a primeira voz que se escuta é de Perpetua Socorro, de 66 anos. “O Senhor, soberano, me deu suas palavras de sabedoria para que eu saiba consolar os cansados. Ele diz todas as manhãs, Ele, o soberano, me acorda e abre meu entendimento para ouvir-me”, ela lê. É uma das anciãs que vêem no culto um espaço de comunhão e encontro.

 

A Igreja Adventisma do Sétimo Dia não está localizada nas plataformas de mapeamento. Está disponível apenas em dados do CNEF e no site destinado à busca de congregações do Brasil. Além da igreja, a própria Travessa Moçambique — local onde ela reside — está fora do mapa de realocações no projeto de urbanização do canal 4. 

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“Vai ser tirado só essas casas aí, da beira do canal, esses quatro, mas aqui nada vai ser tirado. As casas vão ficar na beira do canal do mesmo jeito”, desabafa Socorro. A apreensão da devota também dialoga com os dizeres na Rua 21 de Novembro, logradouro ao lado da Travessa.

 

Ao passar pela região, os moradores costumeiramente falam que “o pessoal da Moçambique, sempre quando chove, entra nas casas". "Na nossa aqui, ó, por incrível que pareça, nós moramos na beira do canal, mas nunca alaga”, conta uma das moradoras.

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Uma das residências alagadas foi a de Paulinho Sousa, que teve de sair por três meses da casa pela situação em que se encontrava. Recebeu apoio durante dois meses por um casal de idosos que frequentam e moram ao lado da igreja.  Davam-lhe almoço e café da manhã, até que aconteceu desavenças entre o jovem e o casal. Atualmente, retornou a sua casa, recluso, sem querer falar com ninguém.

 

Socorro também realiza ações de apoio junto à igreja. A principal é a ponte que conecta a travessa com a rua Moçambique. As tábuas de madeira foram colocadas pelos fiéis e permanecem até hoje. “Aí tem dois processos abertos na Prefeitura, no meu nome que eu pedi uma ponte de cimento e um parquinho para as crianças. Essa ponte existe porque a igreja foi quem fez”, relata a pastora.

 

Essa articulação de Perpétuo já é conhecida entre os moradores, embora a mesma não se considere como liderança comunitária. “Já fui atrás de muitas coisas e fiz foi arranjar inimigos”, conta. Mesmo assim, a pastora contesta o planejamento urbano do projeto, principalmente se houver a entrada de máquinas pesadas em um terreno arriado. 

 

Socorro também contraria algumas ações dos vizinhos. “A população joga muito lixo. Agora tem um senhor cortando um pé de tamarindo pra jogar dentro do canal. Passa carro de lixo três vezes na semana, não tem necessidade de ninguém jogar lixo”, explica. Para a devota e os demais fiéis, a forma de falar deve ser pensada durante o dia a dia, seja para educar alguém sobre a poluição ou para apresentar um projeto urbano.

 

“Eles tentam deixar transparente para a comunidade. Porém, às vezes, temos dificuldade em compreender, não é? Porque é uma língua diferente”, desabafa uma das moradoras.

Imóveis mapeados que sofrerão a realocação.

Foto: Grasieler Martins

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A religião se torna norte para a entrada de caminhos e novas mudanças.

Foto: Grasieler Martins.

ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Além do CEU Aldeia do Caboclo Arranca Toco e a Igreja Adventista do Sétimo Dia, ainda existem 89 instituições religiosas que realizam suas práticas cotidianamente e podem ser impactadas pelo projeto de urbanização. Cada templo tem suas particularidades. Algumas são utilizadas como casa e são bem estreitas e outras são grandes estruturas de uma rede de congregação. O contato entre a comunidade também varia entre uma rede de apoio consolidada ou no início de uma articulação em comunhão.

A própria forma como o Instituto Periferia Viva dialoga com os moradores possui um vínculo religioso. O Posto Territorial está dentro do Centro de Promoção da Vida Helder Camara, equipamento que nasceu em 1996 e é ligado à área pastoral do Parque Genibaú. Além disso, as igrejas já disponibilizaram espaços para que acontecessem as reuniões comunitárias.

 

“Foi no canal 3 que o pastor cedeu a igreja para a segunda rodada de reunião comunitária. No Quintino Cunha também cederam o espaço”, informa Jevane Pessoa.

 

Outra conquista relatada seria a média da participação popular nas reuniões. De acordo com a assistente social, ao longo de sete meses, o número médio de participantes saltou de 15 para cerca de 135 pessoas.

 

Os dados são referentes ao Relatório Geral das Atividades Desenvolvidas pelo Instituto, compreendendo os seis bairros de Fortaleza que serão afetados pelo projeto. Porém, no território do Genibaú, o que alguns moradores relatam é que as reuniões tiveram cada vez menos adesões. Diferente dos outros canais, as instituições religiosas da região não foram usadas para os encontros.

 

À beira dos canais, a fé continua chegando antes das máquinas. Os templos seguem de portas abertas, acolhendo orações, encontros e histórias de quem aprendeu a conviver com a incerteza. Mas a espera também deixa marcas. Entre anúncios, reuniões e promessas, os fiéis observam o tempo passar enquanto, às vezes, tentam imaginar como será o futuro de suas comunidades. 

COMO FOI FEITO?

Os dados utilizados se referem ao Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (Cnefe), disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geometria e Estatística (IBGE). Posteriormente, foram filtrados para uma planilha apenas com os estabelecimentos da classificação “instituições religiosas” e divididos entre latitude e longitude.

 

Para mostrar a quantidade de templos por bairro, os dados filtrados foram cruzados com a malha geográfica de bairros de Fortaleza, disponibilizada na plataforma Fortaleza em Mapas. O resultado obtido foi feito com auxílio de inteligência artificial e checado a partir dos códigos desenvolvidos na reportagem “Fortaleza tem mais de 4 mil templos religiosos e maioria está na periferia”, publicado pelo jornal O Povo no dia 6 de agosto de 2024.

 

Também foi acessada a plataforma “Encruzilhadas em Rede”, desenvolvida pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp/SSPDS), que mapeia os terreiros do Ceará. Até o presente momento, não há informações dos terreiros em fácil acesso na plataforma. 

Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo II do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: prof. Edgard Patrício | Semestre 2026.1

Curso de Jornalismo da UFC

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